6. Forte Vida Comunitária e ambiente de alegria

A alegria é algo que caracteriza nosso modo de viver desde os inícios, e por isso está muito presente em nossas Constituições e em nosso Diretório de Espiritualidade: Respeito a alegria como fruto do Espírito Santo e efeito da caridade, há de tratar, por todos os meios, que “ninguém seja perturbado ou entristecido na casa de Deus”[1]. Para isso é totalmente imprescindível viver a caridade fraterna, “Isto é: ‘tenham por mais dignos os demais’ (Rm 12,10); suportem com paciência sem limites de suas debilidades, tanto corporais como espirituais; ponham todo seu empenho em obedecer-se uns aos outros; procurem todos os bens dos demais, antes que o seu próprio; ponham em prática um sincero amor fraterno; vivam sempre no temor e amor de Deus; amem a seu Abade (superior) com uma caridade sincera e humilde; não anteponham absolutamente nada a Cristo, o qual nos leve todos juntos à vida eterna”[2]. De tal modo deveria viver-se a caridade fraterna que ao ver nossa vida se dissesse: “Olhe, como se amam entre si e como estão dispostos a morrer uns pelos outros!”[3].

De maneira especial há que pedir a graça da ciência da cruz e da alegria da cruz, que só se alcança na escola de Jesus Cristo. E os santos que recordam a alegria que é fruto desta cruz: “eu cheguei a não poder sofrer pois me é doce todo sofrimento”[4].

Daqui também, da Ressurreição do Senhor, surge um elemento que deve ser essencial em nossa espiritualidade cristã: a alegria que, em nosso caso, deve manifestar-se de maneira especial, na celebração do Dia do Senhor, o Domingo; no sentido da festa; e na recreação, que nós chamamos eutrapélia.

A alegria que é um segredo gigantesco do cristão é espiritual e sobrenatural e nasce de considerar o mistério do Verbo Encarnado. “Alegra-te”, regozija-te, lhe disse o anjo Gabriel a Maria; ela diria mais tarde: “meu espírito exulta de alegria” (Lc 1,47), havendo, instantes antes, testemunhado Isabel: “exultou de alegria o menino em meu seio” (Lc 1,44); e logo o anjo aos pastores: “Os anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo” (Lc 2,10); e nasce de constatar o mistério da ressurreição do Senhor: “repletas…de grande alegria” (Mt 28,8); como os discípulos de Emaús: “Não ardiam vossos corações enquanto no caminho nos falava?” (Lc 24,32); “não acreditavam ainda na força da alegria e da admiração” (Lc 24,41), “voltaram … com grande alegria” (Lc 24,52); “os discípulos se alegraram vendo o Senhor” (Jo 20,20). Por isso insiste São Paulo: “Alegrai-vos, volto a repetir, alegrai-vos” (Flp 4,4).

No fundo, a alegria brota de considerar que Deus é (Cf. Ex 3,14), que Cristo é: “Ânimo, Eu sou” (Mc 6,50), que a verdade tem primazia sobre a mentira, o bem sobre o mal, a beleza sobre a fealdade, o amor sobre o ódio, a paz sobre a guerra, a misericórdia sobre a vingança, a vida sobre a morte, a graça sobre o pecado, enfim, o ser sobre nada, a Virgem sobre Satanás, Cristo sobre o Anticristo, Deus sobre tudo. “Deus é a alegria infinita”[5].

Do mistério pascal e do Dia do Senhor – Domingo –, que são os dias de festa por excelência, devem nascer entre nós as festas, já que a autêntica festa deve nascer do culto, quer dizer, no louvor tributado ao Criador pela bondade da existência, já que ao sétimo dia “Deus viu que tudo era bom… e descansou” (Gn 1,31; 2,2-3). E como ensina Santo Agostinho, o culto tem lugar mediante “o oferecimento de louvor e de ação de graças”[6], e sendo o ato principal de culto o sacrifício, se constitui assim na alma da festa. Quanto mais sentido tem isso a luz da ressurreição do Senhor, e da perpetuação de seu Sacrifício nos altares!

Os ensinamentos do Papa Santo também iluminam estes aspectos em nossa legislação:

O Senhor nos chama a viver juntos “Para que o mundo creia” (Jo 17,21). O sinal da fraternidade é, por isso, sumamente importante porque é o sinal que mostra a origem divina da mensagem cristã e possui a força para abrir os corações à fé. Por isso, “toda fecundidade da vida religiosa depende da caridade da vida fraterna em comum. Mais ainda: a renovação atual na Igreja e na vida religiosa se caracteriza por uma busca de comunhão e comunidade”[7].

“A vida religiosa será, pois, tanto mais apostólica, quanto mais íntima seja a entrega ao Senhor Jesus, a fraterna a vida comunitária e mais ardente o compromisso na missão especifica do Instituto”[8].

Em efeito, “nossa identidade tem sua fonte última na caridade do Pai. Ao Filho – Sumo Sacerdote e Bom Pastor –, enviado pelo Pai, estamos unidos sacramentalmente através do sacerdócio ministerial pela ação do Espirito Santo. A vida e o ministério do sacerdote são continuação da vida e ação do mesmo Cristo. Esta é nossa identidade, nossa verdadeira dignidade, a fonte de nossa alegria, a certeza de nossa vida”[9].


[1]  SÃO BENTO, Santa Regra, XXXI, 19.
[2] SÃO BENTO, Santa Regra, LXXII, 1-12.
[3] TERTULIANO, Apologética, ML 1,534.
[4]  SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS, História de uma alma, cap. XII, 21.
[5] SANTA TERESA DOS ANDES, Carta 101.
[6] SANTO AGOSTINHO, De Spiritu et littera, XIII,22
[7] SÃO JOAO PAULO II, discurso a conferência plenária da congregação para os institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica (20 de novembro de 1992) 3.
[8] Exortação apostólica pós sinodal Vita consecrata, 72.
[9] Cf. Exortação apostólica pós sinodal Pastores dabo Vobis,18.